Acidentes aéreos promovem mudanças no comportamento do consumidor

Acidentes aéreos promovem mudanças no comportamento do consumidor

De que maneira os recentes acidentes aéreos podem provocar mudanças, no comportamento de compra do consumidor. A continuar no ritmo atual, as pessoas passarão a consultar o tipo de aeronave, experiência do piloto, tempo em rota e valor do seguro, antes de embarcarem em uma aeronave.

Nas últimas semanas fomos surpreendidos por uma série de acidentes aéreos. O Air France AF447 com destino a Paris desapareceu no Oceano Atlântico, o Airbus A310 da Yemenia Air mergulhou no Oceano Índico e finalmente, o Tupolev 154 caiu no Teerã. Somando-se o total de vítimas chega-se ao número assustador de 548 mortes e apenas um sobrevivente, uma menina que viajava com sua mãe.

Seja pela dimensão das tragédias ou pela cobertura abrangente da mídia, acidentes aéreos são sempre motivos de muita especulação e opiniões. Consultam-se especialistas, ex-pilotos, operadores de tráfego aéreo, engenheiros. Diversas facetas são abordadas, histórias anônimas tornam-se conhecidas, familiares são entrevistados, acidentes anteriores relembrados.

Tornamo-nos especialistas em aviões, aeroportos, condições climáticas, caixas pretas. Entendemos questões complexas como tubos pitots, reverso do motor, ranhuras e comprimento mínimo de pistas de pouso, zonas de convergência intertropicais, turbulências. Até quem não tem medo de voar sente-se inseguro, tamanha cobertura e exposição.

Obviamente, toda essa situação traz grandes conseqüências para as empresas aéreas. A teoria de marketing, que divide o processo de compras em três etapas: pré-compra, encontro de serviços e pós-compra, pode nos ajudar a entender as possíveis alterações no comportamento do consumidor em momentos como esse.

A etapa pré se resume na busca de passagens com menores preços e condições de pagamento pela internet. Algumas ações são adotadas para diminuir o foco em preços. Cartões de fidelidade e crédito que acumulam milhas são bons exemplos. Aos que viajam esporadicamente, pouco ou nenhum efeito tem.

O encontro de serviços é coisa de um passado longínquo. Talheres de prata, copos de cristal, refeições elaboradas estão restritas às classes executiva e primeira. Caixinha de papel é passado recente e barrinhas de cereal, o triste presente. Tento imaginar o que será do futuro.

O pós – praticamente inexiste na classe econômica – possui tamanha padronização. Totens de auto-atendimento, check-in expressos, televisores em vez de pessoas e até limpeza da aeronave feita pelo próprio passageiro. Um verdadeiro descaso ao consumidor.

Diversos autores apregoam que o processo de compras se baseia no tripé: custo, conhecimento e risco. Por exemplo, quando compramos uma roupa, não vamos em busca de informações adicionais. Compramos por impulso, comodidade ou hábito. Isso porque o custo e o risco são relativamente baixos, o que nos deixa menos preocupados com o conhecimento.

Entretanto, para produtos ou serviços mais complexos e maiores, como uma cirurgia plástica ou a escolha de um curso universitário, buscamos sempre a opinião de parentes, amigos e ainda de diversos profissionais. Quando decidimos, o fazemos com base em nosso juízo de valor, construído com as informações obtidas.

Quero mostrar com isso que, se os acidentes continuarem a acontecer com tal frequência, a escolha por uma companhia aérea poderá deixar de ser feita apenas com base em preço. Itens como confiança, juízo de valor e busca por informações podem se tornar fatores importantes na decisão de compra.

Questões como: experiência do piloto, horas de vôo, cursos e treinamentos realizados; fabricante, modelo e idade da aeronave, últimas manutenções; condições meteorológicas em rota, seguro, seguradora e valor da indenização em caso de sinistros podem se tornar questionamentos comuns na hora de comprar uma simples passagem aérea.

E aí, será que as companhias darão conta de responder todos esses questionamentos a contento? Não é mais fácil, barato e racional investir para que esses acidentes sejam evitados, vidas sejam poupadas e imagens empresariais preservadas? Como usuário frequente de aeronaves, espero poder continuar escolhendo a companhia aérea com base apenas em preços ou milhas acumuladas, sem precisar consultar algum serviço específico ou especialista para cálculo das probabilidades e do valor do seguro, antes de pegar o próximo vôo.

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