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Cultura organizacional: dos campos às empresas

Creio que você, assim como eu, já esteja cansado das análises de locutores, comentaristas, jornalistas, jornaleiros, padeiros, pedreiros, colegas de trabalho, parentes, amigos, inimigos, conhecidos e desconhecidos sobre a desclassificação do Brasil na Copa. Hora de caça às bruxas, jogadores e comissão técnica. Os culpados desta vez não foram à falta de concentração, os treinos abertos, os contatos e entrevistas com fãs e imprensa, o assédio aos craques e o clima descontraído.

Execrado pelo insucesso na Alemanha, o modelo mais democrático foi substituído pelo hierárquico, rígido. Para comandar a tropa, um líder com jeito e cara de militar. Treinos fechados, jogadores enclausurados, distância dos fãs, respostas prontas à imprensa, clima pesado. Que recruta ou tenente ousaria desobedecer às ordens do sargento ou capitão?

A mudança de rumo na condução da seleção brasileira traz à tona a questão da cultura organizacional – sistema de comportamentos, normas e valores partilhados pelos membros de uma organização, tornando-a única, dentro de certos parâmetros. Talvez por esta razão levemos algum tempo até nos ajustarmos a um novo emprego. Conheço bons profissionais que após passarem longos períodos em uma única organização, não conseguem se adaptar a novos trabalhos, pulando de empresa em empresa. Com o passar do tempo, a cultura permeia empresa e profissionais.

Como num continuum, as corporações se classificam entre os extremos flexíveis e hierárquicos. Vejamos as principais diferenças.

Tomada de decisões: empresas orgânicas fornecem maior autonomia aos seus colaboradores, incentivando-os a assumirem riscos controlados. O fluxo decisório em geral é também mais rápido, com menor número de assinaturas e carimbos.

Promoções: tempo de serviço é uma característica que determina o critério de promoções em estruturas mais duras. Em contrapartida, em corporações mais abertas, prevalece à meritocracia (do latim mereo, merecer, obter), forma de avaliação baseada no mérito.

Salários e bonificações: a proporção entre salário fixo e variável é inversamente proporcional em cada lado do continuum. A segurança de um bom percentual garantido é característica das empresas conservadoras, enquanto gratificações polpudas fazem parte das firmas agressivas.

Benefícios: o pacote costuma ser mais tradicional em empresas menos flexíveis, concentrando-se no básico: plano de saúde, vales refeição, alimentação e transporte. Políticas de reembolso para pós-graduação, mestrado e línguas, concessão de licenças para cursos de longa duração, distribuição de opções de ações fazem parte das firmas mais abertas.

Ambiente: terno, tailleur, gravata, meia calça, maquiagem discreta, cabelo curto e pronomes de tratamento, são comuns em organizações mais formais. Vestimentas confortáveis, linguajar coloquial, salas amplas e portas abertas são vistas com mais frequência em lugares mais democráticos.

Antes que as características apresentadas denunciem a empresa na qual você trabalha ou dirige, vale salientar que não há modelos certos ou errados. Há diversos casos de sucesso em ambos os extremos do continuum organizacional. O que definirá a estrutura adotada será o segmento no qual a empresa pertence, o nível de competição e a maturidade dos competidores. Estruturas orgânicas se assemelham a setores mais competitivos e inovadores, os quais exigem tempos de resposta mais rápidos. O mesmo se aplica ao desempenho dos colaboradores.

Uma vez exposta à importância da cultura organizacional na construção dos comportamentos, normas e valores, só nos resta aguardar a escolha do próximo técnico da seleção canarinho. As duas últimas edições da Copa demonstraram perfis bastante distintos de liderança, os quais foram determinantes para moldar o estilo das seleções. Antagônicos, sugerem que a tática correta talvez seja o jogo pelo meio e não pelos extremos.

escrito por Marcos Morita

Marcos Morita

Marcos Morita é mestre em Administração de Empresas, professor da Universidade Mackenzie e professor tutor da FGV-RJ. Especialista em estratégias empresariais, é colunista, palestrante e consultor de negócios. Há mais de quinze anos atua como executivo em empresas multinacionais.

Sobre o Autor: Marcos Morita

Marcos Morita é mestre em Administração de Empresas, professor da Universidade Mackenzie e professor tutor da FGV-RJ. Especialista em estratégias empresariais, é colunista, palestrante e consultor de negócios. Há mais de quinze anos atua como executivo em empresas multinacionais.

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